7 de agosto de 2012

Presente

Cheguei ao prédio onde eu morava logo no cair da noite. Estava morrendo de pressa. Queria tomar logo um belo banho; conferir se a água lavava também o mal-estar que eu sentia dentro do peito. Foi um dia longo, aquele. Aqueles típicos dias de decepções. Entrei no apartamento tirando os sapatos e quando fui em direção à cozinha, uma surpresa: Em cima da mesa, uma caixa média, com tampa rosa bebê e laço de fita dourado (minhas cores preferidas). Não me recordava de tê-lo deixado ali quando sai pra trabalhar mais cedo. Corri pra abrir. E no momento que retirei a tampa e olhei no fundo da caixa, quase gritei de emoção. As letras grandes na capa revelavam o titulo “Desculpa se te chamo de amor”. Justamente o livro que há tempos, eu era louca pra ler. Notei que junto a ele, havia um papel dobrado. Uma vez com ele em mãos, reconheci facilmente a letra de quem o havia escrito. Detive-me a criar expectativas e comecei a lê-lo. Dizia assim:
“Hoje já faz algum tempo que eu me mudei. Não sei exatamente quanto tempo. Nunca fui muito bom com datas, você sabe, alias você sempre foi melhor com datas do que eu.
 Já se passaram dias, semanas, meses. Perdi a noção do tempo. Mas de uma coisa eu sei: não nos vemos desde que eu parti; o que preciso te lembrar: você nem fez esforço pra me impedir. Agora tanto faz.
A maior dor não pelo fato de você não ter escolhido ficar comigo, quando podia. E nem por você me deixar partir sabendo que sentiria minha falta. Foi pelo fato da gente sequer poder ser amigos por pura imaturidade minha. Porque naquela época, eu não aceitava. Acho que essa distancia me fez reconhecer isso. E sabe, eu repensei muito sobre aquela sua teoria de que quem mais odeia, mais ama. E quase chorei pensando na indiferença que eu fingia ter.
Eu só queria que soubesse que resolvi lhe enviar esse presente porque aqui na frente da minha casa tem uma livraria. E todos os dias que passava por ali, via esse livro exposto e o nome me levava automaticamente a você. Porque você repetiu o titulo desse livro todas as tardes antes de eu me mudar. E agora eu sinto uma falta absurda da sua voz. É só que eu ficaria terrivelmente mal se continuasse olhando pra ele todos os dias, lembrando de você e sem tomar providencias. Só espero que o presente chegue no endereço certo. Mas eu sei que você gostava desse apartamento demais pra ter se mudado. Ah e nem pense em devolver o presente como você quis fazer com a pulseira de estrelas que eu te dei.
Provavelmente deve estar se perguntando o porquê de tudo isso. Mas fica tranquila: Eu já me conformei. Me conformei de ter te perdido, me conformei de ter ido embora. Não estou fazendo isso pra provar nada, não quero recuperar nada; não quero interferir na sua vida por nada. Só espero que esteja bem e que me reconheça quando ler isso. E que quando lembrar, tente sorrir.”

(Raphaela Fagionato)


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