11 de julho de 2012

A mocinha dos olhos caramelos estava inquieta...


Impaciente, desconfortável. Num gesto repetitivo tirou a franja escura dos olhos. Remexia na cama alta de um lado para o outro. A cama parecia grande demais pra ela e pra aquela solidão.
Pegou no criado mudo ao lado, o livro que vinha lendo há algum tempo. Folheou, leu algumas linhas. Mas não conseguia se concentrar (O livro sempre foi tão interessante, não foi?).
No fundo da memória, reproduzia os versos tristes de uma canção que tinha descoberto naquele mesmo dia, mais à tardinha. Falava sobre distancia, sobre pessoas insubstituíveis, sobre amor. Ainda que em inglês, mas a jovem dominava bem a língua estrangeira.
A respiração atrapalhada por uma forte gripe ressoava alto no silêncio da madrugada. Eram dias frios aqueles. A garota já não ia pra cama um só dia sem calçar meias grossas.
Não tinha pensamento, não tinha sentimento, não tinha saudade, nem arrependimento; só tinha a respiração alta e as meias coloridas.
Não havia nem vontade de chorar. Nem mesmo com a bendita musica triste repetindo e repetindo em sua cabeça, como plano de fundo em algum filme/ novela/ seriado melosamente romântico (como “my heart go on” em Titanic).
Só tinha a garota. E a meia colorida. Dava a impressão de que se alguém lhe chacoalhasse, não cairiam nem balas, nem moedas, nem sonhos, nem risos, nem lembranças.
Não tinha nada. Só tinha ela, crua. Só ela e aquela respiração alta que enchia o quarto (era sinal de que estava viva!).
Vazia. E olha que fez esforço: Pensou na lembrança que mais lhe machucava. (Pensou naquele garoto que usava boné do curso de inglês e do quanto o amou. E de quando, com os olhos cheios de lagrimas, ela pediu pra que ele fosse embora, esperando, no fundo, que ele não fosse. Mas foi. Foi assim, sem nem olhar pra trás. E depois de meia semana já estava atarracado com aquela ruiva de pintinhas que já tinha ficado com metade dos garotos da turma. E até lembrou-se de quando o Bob, o cachorrinho da família desde sempre, morreu de velhice. Naquele tempo era mesmo uma dor sem fim).
Não fazia diferença mais. Nem doía mais. Coisas ruins acontecem, não? Então. Não tinha saudade, nem dor. Nada.
Pensou em pássaros, em estrelas, em pôneis, em livros, em Londres, em amor.
Nada. Como quem aceita tudo, não sente mais, nem se incomoda.
Como quem anda por ai respirando, mas já morreu por dentro há muito tempo; e pior: ninguém nem percebeu. 

(Raphaela Fagionato)



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