27 de junho de 2012

A menina que amava pássaros


“Meu dia começava entre às oito e nove da manhã. Antes que eu pareça preguiçoso, deixe-me explicar: Entre às oito e nove da manhã, era o horário que ela comprava café. Ela não tinha um horário fixo para entrar na cafeteria em que eu trabalhava, mas nunca se passavam das nove. Sempre estava de bom humor, escolhia o seu típico café descafeinado, às vezes pra renovar pedia com creme. Até seu jeito de pagar era bonitinho, sempre entregava o dinheiro trocado, passava um bom tempo contando moedas, e se querem saber, essa era a parte que eu mais gostava. Os dedinhos fininhos apanhavam cinco, dez, cinquenta centavos. Um, dois, três reais e pronto, ela entregava para a garota do caixa e saia porta a fora, em direção a uma pracinha que por sorte, era praticamente em frente à cafeteria, de modo que eu passava a manhã inteira observando-a. No começo, não entendia qual o objetivo daquilo. Acordar provavelmente seis horas da manhã, - porque ela era perfeccionista demais para acordar em cima da hora, ir à cafeteria sempre no mesmo horário e depois passar a manhã inteira tomando café na praça, sozinha. Depois, com o tempo livre que eu tinha para observá-la, reparei o porquê dessa rotina. Todos os dias ela carregava consigo uma bolsinha de pano, com a aparência bem velha e desgasta. Numa dessas de demorar para contar o dinheiro, vi que dentro da bolsa, haviam pedaços de pão e alpiste. Ela adorava observar os pássaros. Ficava a manhã inteira bebendo café e jogando pãozinho e ração para os pombos e canários que vinham visitá-la. Não duvido nada que aquele velhinho que sentava junto à ela todas as terças-feiras, para conversar sobre pássaros, não entendia nada sobre os mesmos. É disso que estou falando, ela encantava desde adolescentes idiotas que ao invés de trabalharem passavam a manhã inteira observando-a, até velhinhos aposentados e caras de pau o bastante para darem uma espiada nas pernas dela enquanto ela as cruzava ou quando resolvia sentar com “perninha de índio”. 

A parte mais triste do dia era quando já era quase hora do almoço e ela levantava do banco, se despedia dos mil e um passarinhos que provavelmente também ficavam encantados com ela, e ia embora. Virando na esquina e partindo para não sei onde. E eu me sentia preso a uma garota que até então, era uma estranha. Eu não sabia seu nome, idade, endereço ou onde estudava. Na verdade o que eu sabia sobre ela, era que o som da sua risada era agudo e engraçado, que seus olhos ficavam espremidinhos pelas bochechas quando sorria e que sua cor de esmalte favorita era azul, - já que era a que mais usava. Também sabia coisas que todos também sabiam. Como a cor do seu cabelo e que de tão fino, o vento sempre bagunçava. Por isso, todas as vezes antes de entrar na cafeteria e soar o sino irritante que ficava no topo da porta, ela ajeitava a franja. Era tudo tão espontâneo e natural, que até mesmo o barulho irritante da porta, amenizava só porque era ela quem estava entrando. E eu, na minha função de completo idiota da história, acreditava que jamais iria falar com ela. Já que eu não sabia puxar assunto e também não possui coragem para assim fazê-lo até então. 
Era uma quarta-feira, o dia estava nublado e a chuva da madrugada agora só era uma garoa chata. Oito e meia. Oito e quarenta e cinco. Oito e cinquenta. Nove horas. Nove horas e um minuto. Nove e meia. Dez horas. Dez horas e sete minutos… E nenhum sinal dela. Primeiro, achei normal, estava friozinho e a chuva já havia voltado. Quem em sã consciência apareceria para alimentar pássaros? Depois, lembrei que ela faria isso. Há uns três meses ela já apareceu com um guarda-chuva amarelo do Pikachu, e ficou lá, bebendo seu café e jogando pão encharcado para os pombos. Às vezes eu tinha inveja daqueles pássaros. Quem dera essa preocupação fosse toda minha. Quem dera ela lembrasse de mim todas as manhãs e não deixasse nunca de me dar atenção. Mas ela nem notava minha existência. Eu era  o garoto que praticamente usava todos os seus talentos e caprichos para preparar o melhor café do mundo para ela. Eu só era o maluco desocupado, apaixonado por ela e por todas as suas manias esquisitas. Desde aquela de mexer na franja toda hora, até a de fica balançando as pernas enquanto estava sentada. Mas disso, ela não sabia. E assim, passaram-se quarta, quinta, sexta, sábado, domingo, segunda, terça, e ela só resolveu aparecer uma semana depois. Acho que aquele dia foi o melhor e pior da minha vida. Ela entrou na cafeteria. Não se preocupou nem em ajeitar os cabelos antes, me parecia tão desanimada que até o barulho do sino foi mais baixo do que de costume. Ela olhou nos meus olhos e pediu seu café de sempre. Sem nenhum sorriso, sem nenhum “bom dia, moço”. Reparei que o olhar também era desanimado e haviam olheiras profundas, sinal de quem só chorava e dormia. Sei lá, nunca entendi porque isso surgia, mas quando me aparecia umas dessas, era porque havia passado a noite inteira no vídeo-game. Ela nem contou as moedinhas nem nada, deu uma nota inteira e pareceu impaciente quando a moça do caixa demorou para dar-lhe o troco. Bem ela, que nunca tinha pressa pra nada. Andava pisando em nuvens e naquele dia, parecia pisar em falso. Saiu porta a fora e eu quase apostei meu salário todinho comigo mesmo, de que ela não iria para a praça. Mas foi. Mesmo triste, ainda era fiel ao seus pássaros. Um tempo depois descobri porque tanto amor a esses bichinhos, segundo ela “os pássaros são livres, quando surge um problema, eles podem simplesmente voar”. Era de cortar o coração ver ela daquela maneira. Sem vida nenhuma, sem risadinhas agudas e sem sua alegria que contagiava todo o ambiente. Ela dava cor para as árvores, dava canto para os pássaros e dava até vida para as minhas manhãs. Por ela, eu tentava ser o melhor. Depois que ela começou a ir na cafeteria, eu comecei a pentear os cabelos, colocar camisetas limpas e até mais banhos por dia eu passei a tomar. Acho que, eu devia isso a ela. Pedi a um amigo que ficasse alguns minutos em meu lugar e corri até a praça. Nem sei o que passou na minha cabeça, eu só não queria mais vê-la daquele jeito. Nem se fosse para ela dar um sorrisinho amarelo, qualquer coisa, só queria ser útil pra ela, enquanto ela tinha mil e uma utilidades pra mim.
Sentei ao lado dela, como o velhinho das terças-feiras fazia, e fiquei pelo menos uns vinte minutos observando ela jogar pão para alguns pombos. Foi quando ela começou a chorar. Primeiro suspirou, largou os pães no chão e depois, veio as lágrimas. Lembro de ter ficado sem reação e depois me sentir o cara mais covarde do mundo, por não conseguir pronunciar nenhuma palavra enquanto a garota que eu amava despencava em lágrimas do meu lado. 
- Não chora. - foi o máximo do máximo que consegui falar. Ela fingiu não me escutar e continuou chorando por mais alguns minutos. 
- Eu estou falando com você. - tomei coragem pra dizer e depois me arrependi, quando ela me fuzilou com o olhar. Fora a primeira vez que ouvi uma palavra rude vindo dela. 
- Me deixa em paz! - ela tentou gritar, mas as lágrimas abafavam sua voz. 
- É sério, não chora. - na hora, eu queria correr para trás do balcão da cafeteria e me esconder até ela completar uns trinta anos e provavelmente estar casada. - Por que você está chorando? - eu perguntei, ansioso.
- Por que está preocupado? - ela cruzou os braços e soluçou, enquanto algumas lágrimas escorriam por sua bochecha. 
Quis dizer que aquela era minha função. Me preocupar, observar e de longe, zelar por ela. Mas eu era covarde demais para aquilo também. 
- Não sei. Só não gosto de ver as pessoas chorando. 
- As pessoas ou garotas? - E eu passei de intrometido à galinha em menos de dois minutos. 
- Você não respondeu minha pergunta. - tentei ser severo, ela só virou a cara e fitou os pombos voarem para longe. Achei que ela levantaria e iria embora, também achei que meu chefe e todos os funcionários estariam observando meu fracasso como futuro namorado. Mas ela ficou, e melhor, respondeu. 
- Homens. Sempre os homens, não é? - E naquele momento eu comecei a realmente me sentir galinha, mesmo na época não tendo beijado mais do que vinte garotas na vida e ter perdido a virgindade com uma prima de vigésimo grau. 
- O que eles fizeram desta vez? 
- Fizeram sexo com melhores amigas. - Lembro dela ter dado de ombros e reiniciado todo o chororô. Na hora, senti ciúmes e raiva ao mesmo tempo. Então ela tinha namorado, e ele havia traído ela. Eu me arrependi de ter fugido do meu trabalho e quis levantar, indo embora. Mas eu não poderia deixar a garota que eu amava sozinha, em prantos e precisando de conselhos, mesmo que eu não soubesse dá-los. 
- Talvez elas não eram bem “melhor amigas”, e ele não era um bom namorado. - Juro que quis ajeitar a franja dela, colocando-a atrás da orelha, qualquer coisa, só queria tocá-la. Mas pra isso, eu também não tinha coragem. 
- Não dói porque eu o amo. Talvez eu nem goste tanto assim dele. Dói mesmo porque eu confiava nos dois. - ela secou os olhos com as costas das mãos e me olhou no fundo dos olhos, como se estivesse lendo minha alma. - E você, qual é o problema? - e eu ainda estava preso na esperança de que ela não o amava, então talvez houvesse um espaço pra mim. 
- Nenhum. - arqueei uma das sobrancelhas e a encarei. Ela sorriu, ficaria feliz por isso se não fosse um sorriso carregado de compaixão, ao invés de felicidade.
- Todo mundo tem problemas. - Talvez o meu fosse você, pensei em dizer. Mas pra isso, eu era covarde demais também. 
- Acho que amo alguém. - quis morder a língua depois de ter dito, mas já era tarde demais. 
- Isso não é ótimo? - ela pulou da cadeira e se aproximou de mim, como se eu tivesse despertado o lado curioso que toda mulher possui, só que umas demonstram às vezes e outras esfregam em nossas caras. 
- Não é não. - não aguentei e ri do seu entusiasmo. 
- Por que? - Vi sua curiosidade triplicar. 
- Porque ela não dá a mínima pra mim. - Eu quis que parecesse uma indireta, mas ela nem se deu conta, para variar. Isso era o que mais me impressionava, ela notava cada detalhe nos pássaros, sabia exatamente por onde andava em cada cantinho da cidade e reparava sempre no perfume das pessoas da cafetaria, mas não notava que alguém era louco por ela. 
- Ela te conhece? 
- Ela sabe que eu existo. - eu ri de novo, dessa vez para não chorar. 
- Então você já marcou ponto. - ela sorriu e a vontade de tê-la em meus braços aumentou junto com as minhas esperanças. 
- E agora falta o quê? - Eu acho que estava melhorando, já que pelo menos, tinha feito ela esquecer do namorado canalha e ter se concentrado em me ajudar a conquistá-la. 
- Descubra do quê ela gosta. 
- Disso eu já sei. 
- Repare em algumas coisas sobre ela.
- Isso eu também já sei. - pensei na lista de qualidades e na inexistência de defeitos sobre ela.
- Então puxe assunto, arrume um jeito de falar com ela.
- Eu arrumei. - ela ficou calada por alguns minutos e depois voltou a se animar. 
- Mesmo? Qual? 
- Vi ela triste e resolvi ajudá-la. 
- Que lindo. - ela fez aquela voizinha de quem fala com bebês como se tentasse alcançar a língua deles e sorriu, dessa vez quase fechando os olhos de tanto que as bochechas os espremeram. - E deu certo? - apoio o braço no encosto do banco da praça e tombou a cabeça, e eu por impulso a imitei, arrancando a risadinha aguda dela. 
- Acho que sim, ela até esqueceu os problemas.
- Ela te deve uma então, cobre isso dela. - Seus olhos alcançaram o relógio que estava em meu pulso e ela praticamente saltou do banco, era quase hora do almoço. 
- Desculpa, estou atrasada, preciso ir. - ela se despediu beijando minha bochecha, e eu passei segundos extasiado com o cheiro do seu cabelo misturado com o do perfume que usava. Antes que ela atravessasse o bairro inteiro com aquelas perninhas curtas, agarrei seu pulso e a fiz parar, me encarando. 
- Você me deve uma. 
- Como? - e ela arqueou a sobrancelha, desentendida. 
- Alguém que eu conheci pediu para que eu cobrasse isso da garota que eu amo. - E daí para frente ela esqueceu dos pássaros e o motivo pelo qual ela acordava cedo, comprava café e contava as moedinhas com cuidado, era eu.



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