25 de novembro de 2012

Querida desilusão amorosa,


Sonhei com a gente essa noite. Não decidi escrever porque o fato é assim, tão extraordinário. Na verdade, já aconteceu vezes demais, desde a ultima vez que a gente se viu.
Não me incomodam, os sonhos. Acho que enfim superei. Não aperta mais o coração. Não traz nenhuma melancolia. Agora passa despercebido, no meio de tantas outras desilusões (amorosas ou não).
Sabe no que eu pensei? Você achava que sabia tudo sobre mim, mas há uma porção de coisas que faltou você descobrir.
Eu nunca te contei sobre minha paixão por pássaros. Você soube que eu amava livros, mas faltou eu te contar que um dos meus maiores sonhos era escrever o meu próprio. Faltou você ouvir da minha boca que sou mesmo, mandona, impaciente e teimosa.
Eu não te contei que frequentei aulas de violão por uns cinco meses e depois desisti porque as cordas machucavam meus dedos. Não te contei também, que sempre morri de vontade de fazer aula de boxe.
Faltou você ouvir minhas frustrações e meus medos. Sabia que eu morro de medo de lagartixa? Não, você não sabe. Assim como não sabe que o meu doce preferido é sorvete.
Eu nunca te contei sobre meu primeiro amor, nem sobre meu primeiro beijo.
Você soube do meu orgulho, mas acho que não deu tempo de você descobrir que eu sou egoísta.
Faltou eu te contar que amo altura, que tenho preguiça de arrumar a cama. Que só fiz um curso de Panificação porque minha mãe obrigou, e que eu não levava muito jeito pra cozinha.
Mas agora, bem, nada disso importa muito mais meu bem. Agora já passou.
Só porque você conseguia ler nos meus olhos quando eu estava padecendo de tristeza; só porque você me trazia o riso mais sincero; não significava que sabia tanto assim de mim.
Faltou você perceber, ou descobrir, que na verdade não sabia. 

(Raphaela Fagionato)

26 de setembro de 2012

Medo de crescer?

Já fui um pouco como essas garotas que veem o mundo de forma romântica; que sonham encontrar o príncipe encantado, morar num castelo, tudo dentro de um mundinho cor-de-rosa. Ah, qual é, não era essa a mensagem principal dos contos de fadas?
Por alguns anos da minha vida eu achei que tudo era perfeito. Que as coisas duravam pra sempre e que as pessoas eram todas boas e amigáveis.
E por mais ridículo e infantil que isso possa parecer, eu ainda não teria vergonha de admitir.
O tempo passou e eu cresci. É engraçado porque ninguém nem precisou dizer o quanto eu sofreria se continuasse vivendo no meu mundo perfeito. Eu fui descobrindo sozinha. Algumas coisas foram ficando pra trás. Metas foram se estabelecendo, sonhos foram mudando, conceitos foram tomando forma. As bonecas na estante foram dando lugar a livros. As adoráveis meias coloridas ficaram cafonas e horríveis.
Eu simplesmente não pude evitar essa mudança. Eu não podia ficar parada no meu passado, por mais cômodo e aconchegante que fosse. Até porque, ouvi coisas diferentes, que me fizeram pensar diferente. Comecei a ter problemas e a me importar com os problemas do mundo.
Aquela menina que obedecia tudo o que o pai mandava agora quer questionar as ordens dele antes de assentir. Os desenhos na TV que pareciam encantadores e fascinantes agora parecem banais... Historinhas mal contadas não a convencem mais. Antes andava pela casa só de calcinha. Agora, não gosta nem de pensar na hipótese de alguém a ver assim.
Conheceu novos cheiros. Se o cheiro do bolo quentinho da avó parecia a oitava maravilha do mundo, imagina o cheiro que fica na roupa depois que aquele garoto incrível lhe dá um abraço. Conheceu novos gostos. O chiclete que vinha com tatuagem parecia bom, mas o gosto de um beijo demorado parece bom demais.
A menininha que acreditava em tudo mundo, começou a ter decepções. Conheceu a inveja, o ódio. Foi tratada com estupidez. Conheceu a solidão. O egoísmo. Antes, chorava só quando o pai dava umas palmadinhas, agora chora porque o coração dói. Uma dor nova, a amargura. Conheceu a sensação de ser trocada e abandonada. Se por um lado foi pisada, por outro foi ignorada. Sentiu a dor de ser enganada. Agora ninguém mais se importa.
Agora o cabelinho loiro do príncipe não tem tanta importância. Se ele a faz gargalhar, se ele a abraça e a faz sentir única no mundo, já é o suficiente.
Conheceu outros tipos de amor. Não mais aquele amor sereno, delicado e inocente que sentia pelos pais, pelos primos, pelo cachorrinho. É um amor mais violento, mais possessivo, mais agressivo. Agora, vem acompanhado de desejo. Antes, garotos e garotas não se misturavam, agora encontram afeto um no outro. O amigo vira namorado.
Que droga! Tem que aprender a ser fria pra não sofrer novamente. Tem obrigações, tem deveres, tem medos – agora o pai não pode mais lhe proteger de tudo – tem vontades próprias. Tem que fazer escolhas. Abandonar algumas coisas. Aprender a dizer ‘não’. A ser um pouco mais dura e bem mais esperta. Tem que aprender a se defender. Tem que saber perdoar. E tem mais e mais decepções.
Mas e se não tivesse, não aprenderia nunca. Não cresceria nunca. Tá aí a frase chave! Medo de crescer por quê? Eu sempre gostei de coisas novas. Se crescer é um processo necessário, então eu quero aproveitar o melhor das partes.

(Raphaela Fagionato)

“Esse texto faz parte da blogagem coletiva promovida no Depois dos Quinze.

15 de setembro de 2012

Profundo

É que eu não sou só os brincos de pérolas coloridas que uso. Não sou só o riso fácil que tem prazer em cumprimenta o mundo. Nem sou só os textos publicados abertamente num blog.
Eu sou muito mais. Eu sou as noites sem dormir pela ansiedade incontrolável, eu sou as estrelas que assisto com mais interesse e fascinação do que a própria lua; sou a liberdade que os pássaros transmitem. Sou o choro silencioso de um dia não tão perfeito; sou o medo de decepcionar e a vontade de descobrir.
Eu não sou o grito visual das letras estampadas nas minhas roupas, mas sou a mensagem que elas tentam transmitir. Sou a insegurança e a vontade ridícula e mesquinha de ‘ter’ pessoas, sou o ciúme egoísta. Sou o perdão que não meço esforços para aceitar, nem pra ceder.
Sou o sorriso que disfarça uma dor louca pra se esconder, sou a vontade de tentar mais uma vez. Eu sou o desejo de ser protegida.
Eu sou mais do que os livros que leio, sou o conforto que minha alma procura quando começo ler um. Minhas roupas, meu cabelo, minhas vontades, meus sonhos, minhas unhas roídas, meu pavor incontrolável de sapos, minha paixão por sorvete. Tudo é muito mais profundo do que só parece. Porque mesmo já tida como livro aberto ou rosto que transparece sentimentos, há uma infinidade de coisas que eu não demonstro. 
Bem dentro de mim, há coisas escondidas. Bem lá no fundo, onde poucos tem paciência pra chegar, ou sensibilidade pra enxergar.

(Raphaela Fagionato)



7 de setembro de 2012

Amigo, amigo

É que ele tinha um sorriso tão amigável, tão sincero, e aconchegante, que quando ele sorria, brotava automaticamente uma vontade de descobrir o porquê daquele sorriso tão incrível. Era instigante o sorriso dele. Será que tinha assim, tantos motivos para sorrir? Ou será que sorria justamente para esconder uma dor? Me dava vontade de sorrir também.
É que ele tinha olhos cheios de graciosidade. Eles não eram lá tão especiais. Não tinham nem um tipo de cor super-rara. Mas eram, ainda assim, lindos por si só. E era essa a graça. Talvez o brilho, talvez o formato que eles pegavam quando ele sorria. Ficavam menorzinhos, meio puxados pros lados. Encantadores. Me instigava descobrir o que é que aqueles olhos já tinham visto. Por outro lado, quando não sorriam, observavam desatentos as coisas. Às vezes tomavam até um toque de melancolia. Mas uma coisa era certa: não eram curiosos, nem amedrontados, nem intimidadores. Observadores, isso sim.
Me dava vontade de conhece-lo sabe? E isso me assustava.
Escutar seus medos, ajudá-lo com seus problemas sem esperar nada em troca. Compartilhar segredos, confessar vontades e desejos.
É que eu observava seus braços e me dava muita vontade de entrelaçar neles. Não eram daqueles fortes, mas me pareciam resistentes e seguros. E isso bastava. Me dava vontade de abordá-lo, sem mais nem menos, sem perguntas, sem declarações. Abraça-lo como quem ansia a muito um desejo impossível. Me dava vontade de senti-lo. O toque, o calor. Sentir suas mãos em minhas costas, a respiração baixa colada nos meus ouvidos, os dedos deslizando pelos fios longos do meu cabelo. Sentir, só sentir. Presenciar tudo isso de olhos fechados.
Conversar por horas daqueles assuntos tão desnecessários e divertidos que fazem o tempo passar voando, que deixar ar de “do que que a gente tava falando mesmo?”. Uma conversa leve que não dá vontade de parar.
E me dava vontade de colocar sua cabeça no meu colo, falar sobre estrelas, contar historias, ouvir aquelas musicas clichês que só fazem sentido quando a gente tá apaixonado.
Pará tudo! Eu falando em ‘me apaixonar’? Deleta tudo, esquece o que eu falei! Pode deixar que eu mesma grito pro coração: para de ser tonto, quanta expectativa desnecessária! Amigo, amigo. 

(Raphaela Fagionato)



7 de agosto de 2012

Antes de depois do fim


Olhei mais uma vez para folha em branco, e então tive a certeza de que você era o culpado. Sabe por que? Não sobra tempo para inspiração, quando o cara que a gente ama existe de verdade, fora da nossa própria imaginação.
Prometi que aquela seria a última vez que tentaria te fazer entender. Mesmo burlando todas as minhas próprias leis, já escritas em pelo menos um milhão de textos com títulos diferentes e conclusões parecidas, eu tentei. Acho injusto desistir de um amor por preguiça ou falta de tempo. Sempre achei que estar apaixonado por alguém era como um daqueles remédios que o médico receita pra tudo ficar bem, quando nada mais funciona.
Sei lá. Na última vez que nos vimos as coisas estavam  estranhas. Nada de coração na boca, olho no olho e todas aquelas coisas, que antes de você, eu jurava só existirem nas comédias românticas que minha irmã aluga todo final de semana. Não quero acreditar que nós dois somos mais um daqueles casais que chegam ao fim antes mesmo do começo. É uma pena.
Em épocas como essa que vivemos, onde um final feliz quase sempre só dura um final de semana, eu me sentia especial por ter você.  É um saco não achar graça nas baladas e em grande parte das coisas que as garotas da minha idade fazem questão de falar o tempo todo.
Ah, se você soubesse… Eu me senti tão menos sozinha quando te vi pela primeira vez. Jogado naquele sofá da festa do Bernardo, enquanto todos os outros garotos, só para tentar impressionar e parecer mais velhos, dançavam de uma maneira bizarra uma música qualquer em versão remix. Claro, com um copo de alguma bebida na mão e um cigarro no bolso. Você vestia xadrez, usava óculos e ficava olhando o céu da janela.  Só depois fiquei sabendo da sua paixão por astronomia. E só depois você descobriu minha tatuagem de Saturno.
Lembra quando todo mundo dizia que um dia a gente deveria ficar junto?
Às vezes, queria acreditar que esse dia ainda não acabou. Então, se quer saber de mim, liga. Escreve. Pega o primeiro ônibus e bate na minha porta sem avisar. Mas vê se não espera o destino te colocar de novo na minha frente. Talvez, quando isso acontecer de novo, alguém já vai estar do meu lado. E isso será um final feliz. O meu.

(Bruna Vieira)

Presente

Cheguei ao prédio onde eu morava logo no cair da noite. Estava morrendo de pressa. Queria tomar logo um belo banho; conferir se a água lavava também o mal-estar que eu sentia dentro do peito. Foi um dia longo, aquele. Aqueles típicos dias de decepções. Entrei no apartamento tirando os sapatos e quando fui em direção à cozinha, uma surpresa: Em cima da mesa, uma caixa média, com tampa rosa bebê e laço de fita dourado (minhas cores preferidas). Não me recordava de tê-lo deixado ali quando sai pra trabalhar mais cedo. Corri pra abrir. E no momento que retirei a tampa e olhei no fundo da caixa, quase gritei de emoção. As letras grandes na capa revelavam o titulo “Desculpa se te chamo de amor”. Justamente o livro que há tempos, eu era louca pra ler. Notei que junto a ele, havia um papel dobrado. Uma vez com ele em mãos, reconheci facilmente a letra de quem o havia escrito. Detive-me a criar expectativas e comecei a lê-lo. Dizia assim:
“Hoje já faz algum tempo que eu me mudei. Não sei exatamente quanto tempo. Nunca fui muito bom com datas, você sabe, alias você sempre foi melhor com datas do que eu.
 Já se passaram dias, semanas, meses. Perdi a noção do tempo. Mas de uma coisa eu sei: não nos vemos desde que eu parti; o que preciso te lembrar: você nem fez esforço pra me impedir. Agora tanto faz.
A maior dor não pelo fato de você não ter escolhido ficar comigo, quando podia. E nem por você me deixar partir sabendo que sentiria minha falta. Foi pelo fato da gente sequer poder ser amigos por pura imaturidade minha. Porque naquela época, eu não aceitava. Acho que essa distancia me fez reconhecer isso. E sabe, eu repensei muito sobre aquela sua teoria de que quem mais odeia, mais ama. E quase chorei pensando na indiferença que eu fingia ter.
Eu só queria que soubesse que resolvi lhe enviar esse presente porque aqui na frente da minha casa tem uma livraria. E todos os dias que passava por ali, via esse livro exposto e o nome me levava automaticamente a você. Porque você repetiu o titulo desse livro todas as tardes antes de eu me mudar. E agora eu sinto uma falta absurda da sua voz. É só que eu ficaria terrivelmente mal se continuasse olhando pra ele todos os dias, lembrando de você e sem tomar providencias. Só espero que o presente chegue no endereço certo. Mas eu sei que você gostava desse apartamento demais pra ter se mudado. Ah e nem pense em devolver o presente como você quis fazer com a pulseira de estrelas que eu te dei.
Provavelmente deve estar se perguntando o porquê de tudo isso. Mas fica tranquila: Eu já me conformei. Me conformei de ter te perdido, me conformei de ter ido embora. Não estou fazendo isso pra provar nada, não quero recuperar nada; não quero interferir na sua vida por nada. Só espero que esteja bem e que me reconheça quando ler isso. E que quando lembrar, tente sorrir.”

(Raphaela Fagionato)


6 de agosto de 2012

“Se importar”


Expressão pesada, não acha? Eu acho. Enrola a língua pra falar, perfura o peito, faz engolir a seco.
Não é que poucas pessoas se importam hoje em dia, é que poucas demonstram isso. É porque na nossa concepção, se importar é querer ficar sempre perto, é sinônimo de cuidado.
Mas você acha que alguém que não consegue passar um dia sequer sem pensar naquela pessoa amada, não se importa? Você acha que colar os ouvidos no telefone esperando que ele toque seja não se importar? Acha que andar por ai na esperança de numa esquina qualquer encontrar aquela pessoa, é não se importar? É se importar disfarçado; mas se importa.
E se importar dói muito, mais do que o peso de dizer a expressão.
É complicado querer estar no controle da vida de outra pessoa. Querer saber sempre por onde ela anda, com quem fala, se ama outra pessoa. Se importar disfarçado de curiosidade. E sabe o que é ainda mais complicado? Reconhecer que perdemos esse direito. Se eu te deixei ir, se você foi porque quis, que diferença isso faz?
Isso importa?
O que importa é que você já esperou por aquela ligação que nunca veio (então porque você mesmo não ligou?). E que por vezes você submeteu todos os seus atos aquela pessoa. Preocupado com o que ela vai achar das suas decisões; esperando que o que você fale um dia chegue a ela. E você ainda tem coragem de dizer que não se importa!
Porque se importar, machuca. Porque se importar deixa as coisas mais complexas, deixa o processo de desatrelamento bem mais lento.
Mas se você quer saber o que é não se importar, aí vai: não se importar é não se preocupar. É não pensar, não lembrar. Não guardar – nem presentes, nem lembranças, nem magoas, nem raiva. Não se importar é saber exatamente o que fazer caso encontre aquela pessoa andando na rua. E não sentir vontade de olhar pra trás ao virar a esquina; e nem olhar pro celular pra conferir se tem ligação perdida. E finalmente, não se importar é parar de falar que não se importa, porque na verdade, até de falar você já se esqueceu.

(Raphaela Fagionato)


28 de julho de 2012

Então, escrevo!


Acho que ninguém nem sabe disso. Enfim, nunca falei disso pra ninguém.
Desde muito tempo, eu tenho sempre um caderno em cima da escrivaninha. Esse texto mesmo passou por lá antes de vir pra cá. Eu simplesmente não vivo se não tiver esse bendito caderno por perto. Mas não se enganem: ele não tem uma capa rosa, cheio de frufrus, com cheiro de maça verde e escrito com letras douradas numa organização impecável. Pra falar bem a verdade, acho que ninguém entenderia os garranchos e rabiscos além de mim.
Eu escrevo absolutamente tudo: trechos de musicas que tocam num fim de tarde qualquer, datas especiais, nome de artistas – e futuros prováveis artistas – que de alguma forma chamaram minha atenção; meu próprio nome em diferentes posições e letras, títulos de livros que eu gostaria de ler, meus sonhos de consumo, ou mesmo os rabiscos enquanto rola uma conversa no celular.
Mas principalmente, meus desabafos feitos quase sempre pela madrugada que depois de reescritos e organizados transformam-se nos meus textos. Sempre tive esse costume de escrever ou mesmo ficar rabiscando.
Escrever sempre foi um alivio. Sempre foi uma escapatória, uma ocupação.
Sempre foi desabafo mesmo. Sempre foi pra tirar do peito uma angustia, para explicar uma situação ruim. Pra descrever algo que aconteceu, e até criar algo que eu gostaria que acontecesse. Pra acalmar o coração; ou pra tira-lo da calmaria. Pra não me sentir tão só. Ou pra me sentir mais só possível. Pra compartilhar problemas, e porque não pra ajudar nos problemas dos outros também?
Acho que foi por isso que nunca parei. Porque provavelmente vai parar minha vida também.
Mas nem tudo que eu escrevo é tão produtivo assim. E os produtivos não saem assim, todo dia. Às vezes fico meses sem escrever uma linha. Depois volto. Tem coisas que eu reescrevo, reescrevo, mudo de lugar, escrevo mais um pouco, apago. Não adianta. Tem coisas que simplesmente não saem. E tem coisas que fluem, mas eu não posto aqui. Alias, tem muitas coisas que eu não posto aqui. E que ninguém nem sabe que existe. Tantos desabafos, tantas declarações, tantas perguntas, tantas confissões. Que eu escrevo assim: pra ninguém ler. Não é por vergonha, talvez por medo, mais pra não gerar confusão mesmo. Pra não ficar mal esclarecido, pra não reiniciar novas dores. Enfim, pra não abrir conversa desnecessária. Alguns deles, eu arranco do caderno, dobro e guardo numa caixa de tampa azul em cima do criado mudo. Alias, ali tem muitas outras coisas. E eu guardo, pra que um dia, uma Raphaela melhor, mais entendida, com menos medo e menos perguntas, releia e entenda que eles não deveriam mesmo ser publicados. Que simplesmente não dizem respeito a ninguém.

(Raphaela Fagionato)


27 de julho de 2012

Por que não?

Atenção! Esse texto tende a questionar! Mas não se preocupe: você não terá que responder nada disso pra ninguém! Só pra você mesmo. Pronto?

É triste não é? Ter amor, mas ter medo. Ter vontade, mas não ter coragem.
Não precisa responder. Eu mesma respondo por ti: é triste sim. E dói cada milésimo de segundo um pouco mais.
É aquele silencio que zumbe nos ouvidos, que dói a cabeça, que não respeita, que não declara, que parte a alma. O silencio que deixa as coisas – tristemente e desesperadamente – normais.
É a lágrima que caí involuntariamente no escuro do seu quarto enquanto você repassa - insatisfeita - as cenas do seu dia.
É a solidão vazia; é o caminhar perdido. É pensar, pensar, pensar, e não encontrar saídas consideráveis.
É esperar que ele faça aquilo que você nunca teria coragem de fazer (mas morre de vontade que aconteça).
É querer que ele te beije no final daquele encontro que você esperou pela semana toda (Mas pera ai, isso é coisa de filme, não é? E se for? Porque não pode ser?)
É ter vontade de falar aquilo que faltou falar, aquilo que você sabe que poderia mudar as coisas. Mas e a coragem? Onde é que entra? Será que entra?
“E se...” Maldita expressão capaz de te perseguir pela vida toda.
“E se” tivesse arriscado; “E se” tivesse tentado; “E se” tivesse falado; “E se” tivesse amado?
E se o tempo já passou, porque não poderia voltar atrás? Porque você não pode voltar atrás?
Teve amor? Tem amor?                        
Se o amor é mesmo um sentimento indestrutívelSe era amor antes, porque não pode ser amor agora?

(Raphaela Fagionato)


11 de julho de 2012

Mas ai ele me abraçou com toda força.

Como nunca abraçou. E eu senti vontade de entrelaçar o coração também. E eu poderia facilmente ficar presa naquele abraço. Foi como se nada mais pudesse me atingir. Como se aquele fosse o lugar mais alto possível. O lugar mais seguro. E me deu uma vontade enlouquecida de chorar. Mas era de alegria. Porque eu nunca senti nada parecido por outra pessoa. Mas então eu me distraí com o pulsar alto daquele coração. Eu encostei a cabeça em seu peito e o som que vinha de dentro dele era ritmado, acelerado. Foi então que saiu daqueles lábios um claro ‘eu te amo, amor’. E eu quis desesperadamente explicar pra ele porque eu o amava muito mais. Mas eu me ocupei em fechar os olhos. E continuar ali imóvel. Não precisei nem responder. E eu tenho certeza que ele entendeu o meu silencio. Porque só ele pode desvendar meus mistérios, reconhecer minhas caras estranhas, resolver meus problemas só olhando pra mim. Como ninguém nunca conseguiu. É como se ele já soubesse tudo o que está acontecendo sem eu precisar dizer uma única palavra.
Foi então que eu me lembrei das tantas coisas que já passamos. Lembrei-me de quantas pessoas passaram pela minha vida e me fizeram acreditar que eu já não precisava dele. E numa fração de segundos elas me provavam que nunca seriam capazes de substitui-lo. E agora eu entendia por que. Ali, dentro daquele abraço, com aquele coração entrelaçado, eu descobria cada vez mais que não poderia ser com mais ninguém. Que nada teria sentido se fosse com outra pessoa. E por mais que eu tenha até sofrido por outros, sentido a falta de outros tantos, ele era o único capaz de substitui-los todos de uma vez.
E o melhor foi que ali eu não tinha mais medo. Eu me entregava a cada milésimo de segundo, e eu sabia que ele não me deixaria cair. O antigo ‘ele’ talvez, mas aquele novo ‘ele’ não. Ele tinha mudado sim, era fácil perceber isso. O antigo ‘ele’ nunca me amaria puramente. Nunca me passaria àquela segurança. O antigo ‘ele’ nunca perderia a chance de ficar com várias ao contrario de uma. O antigo ‘ele’ nunca usaria uma aliança. O antigo ‘ele’ não perderia uma balada num sábado com os amigos ao invés de ficar com a namorada em casa. O antigo ‘ele’ nunca perderia tempo me prendendo naquele abraço. O antigo ‘ele’ não se preocuparia caso me perdesse.

(Raphaela Fagionato)


A mocinha dos olhos caramelos estava inquieta...


Impaciente, desconfortável. Num gesto repetitivo tirou a franja escura dos olhos. Remexia na cama alta de um lado para o outro. A cama parecia grande demais pra ela e pra aquela solidão.
Pegou no criado mudo ao lado, o livro que vinha lendo há algum tempo. Folheou, leu algumas linhas. Mas não conseguia se concentrar (O livro sempre foi tão interessante, não foi?).
No fundo da memória, reproduzia os versos tristes de uma canção que tinha descoberto naquele mesmo dia, mais à tardinha. Falava sobre distancia, sobre pessoas insubstituíveis, sobre amor. Ainda que em inglês, mas a jovem dominava bem a língua estrangeira.
A respiração atrapalhada por uma forte gripe ressoava alto no silêncio da madrugada. Eram dias frios aqueles. A garota já não ia pra cama um só dia sem calçar meias grossas.
Não tinha pensamento, não tinha sentimento, não tinha saudade, nem arrependimento; só tinha a respiração alta e as meias coloridas.
Não havia nem vontade de chorar. Nem mesmo com a bendita musica triste repetindo e repetindo em sua cabeça, como plano de fundo em algum filme/ novela/ seriado melosamente romântico (como “my heart go on” em Titanic).
Só tinha a garota. E a meia colorida. Dava a impressão de que se alguém lhe chacoalhasse, não cairiam nem balas, nem moedas, nem sonhos, nem risos, nem lembranças.
Não tinha nada. Só tinha ela, crua. Só ela e aquela respiração alta que enchia o quarto (era sinal de que estava viva!).
Vazia. E olha que fez esforço: Pensou na lembrança que mais lhe machucava. (Pensou naquele garoto que usava boné do curso de inglês e do quanto o amou. E de quando, com os olhos cheios de lagrimas, ela pediu pra que ele fosse embora, esperando, no fundo, que ele não fosse. Mas foi. Foi assim, sem nem olhar pra trás. E depois de meia semana já estava atarracado com aquela ruiva de pintinhas que já tinha ficado com metade dos garotos da turma. E até lembrou-se de quando o Bob, o cachorrinho da família desde sempre, morreu de velhice. Naquele tempo era mesmo uma dor sem fim).
Não fazia diferença mais. Nem doía mais. Coisas ruins acontecem, não? Então. Não tinha saudade, nem dor. Nada.
Pensou em pássaros, em estrelas, em pôneis, em livros, em Londres, em amor.
Nada. Como quem aceita tudo, não sente mais, nem se incomoda.
Como quem anda por ai respirando, mas já morreu por dentro há muito tempo; e pior: ninguém nem percebeu. 

(Raphaela Fagionato)



27 de junho de 2012

A menina que amava pássaros


“Meu dia começava entre às oito e nove da manhã. Antes que eu pareça preguiçoso, deixe-me explicar: Entre às oito e nove da manhã, era o horário que ela comprava café. Ela não tinha um horário fixo para entrar na cafeteria em que eu trabalhava, mas nunca se passavam das nove. Sempre estava de bom humor, escolhia o seu típico café descafeinado, às vezes pra renovar pedia com creme. Até seu jeito de pagar era bonitinho, sempre entregava o dinheiro trocado, passava um bom tempo contando moedas, e se querem saber, essa era a parte que eu mais gostava. Os dedinhos fininhos apanhavam cinco, dez, cinquenta centavos. Um, dois, três reais e pronto, ela entregava para a garota do caixa e saia porta a fora, em direção a uma pracinha que por sorte, era praticamente em frente à cafeteria, de modo que eu passava a manhã inteira observando-a. No começo, não entendia qual o objetivo daquilo. Acordar provavelmente seis horas da manhã, - porque ela era perfeccionista demais para acordar em cima da hora, ir à cafeteria sempre no mesmo horário e depois passar a manhã inteira tomando café na praça, sozinha. Depois, com o tempo livre que eu tinha para observá-la, reparei o porquê dessa rotina. Todos os dias ela carregava consigo uma bolsinha de pano, com a aparência bem velha e desgasta. Numa dessas de demorar para contar o dinheiro, vi que dentro da bolsa, haviam pedaços de pão e alpiste. Ela adorava observar os pássaros. Ficava a manhã inteira bebendo café e jogando pãozinho e ração para os pombos e canários que vinham visitá-la. Não duvido nada que aquele velhinho que sentava junto à ela todas as terças-feiras, para conversar sobre pássaros, não entendia nada sobre os mesmos. É disso que estou falando, ela encantava desde adolescentes idiotas que ao invés de trabalharem passavam a manhã inteira observando-a, até velhinhos aposentados e caras de pau o bastante para darem uma espiada nas pernas dela enquanto ela as cruzava ou quando resolvia sentar com “perninha de índio”. 

A parte mais triste do dia era quando já era quase hora do almoço e ela levantava do banco, se despedia dos mil e um passarinhos que provavelmente também ficavam encantados com ela, e ia embora. Virando na esquina e partindo para não sei onde. E eu me sentia preso a uma garota que até então, era uma estranha. Eu não sabia seu nome, idade, endereço ou onde estudava. Na verdade o que eu sabia sobre ela, era que o som da sua risada era agudo e engraçado, que seus olhos ficavam espremidinhos pelas bochechas quando sorria e que sua cor de esmalte favorita era azul, - já que era a que mais usava. Também sabia coisas que todos também sabiam. Como a cor do seu cabelo e que de tão fino, o vento sempre bagunçava. Por isso, todas as vezes antes de entrar na cafeteria e soar o sino irritante que ficava no topo da porta, ela ajeitava a franja. Era tudo tão espontâneo e natural, que até mesmo o barulho irritante da porta, amenizava só porque era ela quem estava entrando. E eu, na minha função de completo idiota da história, acreditava que jamais iria falar com ela. Já que eu não sabia puxar assunto e também não possui coragem para assim fazê-lo até então. 
Era uma quarta-feira, o dia estava nublado e a chuva da madrugada agora só era uma garoa chata. Oito e meia. Oito e quarenta e cinco. Oito e cinquenta. Nove horas. Nove horas e um minuto. Nove e meia. Dez horas. Dez horas e sete minutos… E nenhum sinal dela. Primeiro, achei normal, estava friozinho e a chuva já havia voltado. Quem em sã consciência apareceria para alimentar pássaros? Depois, lembrei que ela faria isso. Há uns três meses ela já apareceu com um guarda-chuva amarelo do Pikachu, e ficou lá, bebendo seu café e jogando pão encharcado para os pombos. Às vezes eu tinha inveja daqueles pássaros. Quem dera essa preocupação fosse toda minha. Quem dera ela lembrasse de mim todas as manhãs e não deixasse nunca de me dar atenção. Mas ela nem notava minha existência. Eu era  o garoto que praticamente usava todos os seus talentos e caprichos para preparar o melhor café do mundo para ela. Eu só era o maluco desocupado, apaixonado por ela e por todas as suas manias esquisitas. Desde aquela de mexer na franja toda hora, até a de fica balançando as pernas enquanto estava sentada. Mas disso, ela não sabia. E assim, passaram-se quarta, quinta, sexta, sábado, domingo, segunda, terça, e ela só resolveu aparecer uma semana depois. Acho que aquele dia foi o melhor e pior da minha vida. Ela entrou na cafeteria. Não se preocupou nem em ajeitar os cabelos antes, me parecia tão desanimada que até o barulho do sino foi mais baixo do que de costume. Ela olhou nos meus olhos e pediu seu café de sempre. Sem nenhum sorriso, sem nenhum “bom dia, moço”. Reparei que o olhar também era desanimado e haviam olheiras profundas, sinal de quem só chorava e dormia. Sei lá, nunca entendi porque isso surgia, mas quando me aparecia umas dessas, era porque havia passado a noite inteira no vídeo-game. Ela nem contou as moedinhas nem nada, deu uma nota inteira e pareceu impaciente quando a moça do caixa demorou para dar-lhe o troco. Bem ela, que nunca tinha pressa pra nada. Andava pisando em nuvens e naquele dia, parecia pisar em falso. Saiu porta a fora e eu quase apostei meu salário todinho comigo mesmo, de que ela não iria para a praça. Mas foi. Mesmo triste, ainda era fiel ao seus pássaros. Um tempo depois descobri porque tanto amor a esses bichinhos, segundo ela “os pássaros são livres, quando surge um problema, eles podem simplesmente voar”. Era de cortar o coração ver ela daquela maneira. Sem vida nenhuma, sem risadinhas agudas e sem sua alegria que contagiava todo o ambiente. Ela dava cor para as árvores, dava canto para os pássaros e dava até vida para as minhas manhãs. Por ela, eu tentava ser o melhor. Depois que ela começou a ir na cafeteria, eu comecei a pentear os cabelos, colocar camisetas limpas e até mais banhos por dia eu passei a tomar. Acho que, eu devia isso a ela. Pedi a um amigo que ficasse alguns minutos em meu lugar e corri até a praça. Nem sei o que passou na minha cabeça, eu só não queria mais vê-la daquele jeito. Nem se fosse para ela dar um sorrisinho amarelo, qualquer coisa, só queria ser útil pra ela, enquanto ela tinha mil e uma utilidades pra mim.
Sentei ao lado dela, como o velhinho das terças-feiras fazia, e fiquei pelo menos uns vinte minutos observando ela jogar pão para alguns pombos. Foi quando ela começou a chorar. Primeiro suspirou, largou os pães no chão e depois, veio as lágrimas. Lembro de ter ficado sem reação e depois me sentir o cara mais covarde do mundo, por não conseguir pronunciar nenhuma palavra enquanto a garota que eu amava despencava em lágrimas do meu lado. 
- Não chora. - foi o máximo do máximo que consegui falar. Ela fingiu não me escutar e continuou chorando por mais alguns minutos. 
- Eu estou falando com você. - tomei coragem pra dizer e depois me arrependi, quando ela me fuzilou com o olhar. Fora a primeira vez que ouvi uma palavra rude vindo dela. 
- Me deixa em paz! - ela tentou gritar, mas as lágrimas abafavam sua voz. 
- É sério, não chora. - na hora, eu queria correr para trás do balcão da cafeteria e me esconder até ela completar uns trinta anos e provavelmente estar casada. - Por que você está chorando? - eu perguntei, ansioso.
- Por que está preocupado? - ela cruzou os braços e soluçou, enquanto algumas lágrimas escorriam por sua bochecha. 
Quis dizer que aquela era minha função. Me preocupar, observar e de longe, zelar por ela. Mas eu era covarde demais para aquilo também. 
- Não sei. Só não gosto de ver as pessoas chorando. 
- As pessoas ou garotas? - E eu passei de intrometido à galinha em menos de dois minutos. 
- Você não respondeu minha pergunta. - tentei ser severo, ela só virou a cara e fitou os pombos voarem para longe. Achei que ela levantaria e iria embora, também achei que meu chefe e todos os funcionários estariam observando meu fracasso como futuro namorado. Mas ela ficou, e melhor, respondeu. 
- Homens. Sempre os homens, não é? - E naquele momento eu comecei a realmente me sentir galinha, mesmo na época não tendo beijado mais do que vinte garotas na vida e ter perdido a virgindade com uma prima de vigésimo grau. 
- O que eles fizeram desta vez? 
- Fizeram sexo com melhores amigas. - Lembro dela ter dado de ombros e reiniciado todo o chororô. Na hora, senti ciúmes e raiva ao mesmo tempo. Então ela tinha namorado, e ele havia traído ela. Eu me arrependi de ter fugido do meu trabalho e quis levantar, indo embora. Mas eu não poderia deixar a garota que eu amava sozinha, em prantos e precisando de conselhos, mesmo que eu não soubesse dá-los. 
- Talvez elas não eram bem “melhor amigas”, e ele não era um bom namorado. - Juro que quis ajeitar a franja dela, colocando-a atrás da orelha, qualquer coisa, só queria tocá-la. Mas pra isso, eu também não tinha coragem. 
- Não dói porque eu o amo. Talvez eu nem goste tanto assim dele. Dói mesmo porque eu confiava nos dois. - ela secou os olhos com as costas das mãos e me olhou no fundo dos olhos, como se estivesse lendo minha alma. - E você, qual é o problema? - e eu ainda estava preso na esperança de que ela não o amava, então talvez houvesse um espaço pra mim. 
- Nenhum. - arqueei uma das sobrancelhas e a encarei. Ela sorriu, ficaria feliz por isso se não fosse um sorriso carregado de compaixão, ao invés de felicidade.
- Todo mundo tem problemas. - Talvez o meu fosse você, pensei em dizer. Mas pra isso, eu era covarde demais também. 
- Acho que amo alguém. - quis morder a língua depois de ter dito, mas já era tarde demais. 
- Isso não é ótimo? - ela pulou da cadeira e se aproximou de mim, como se eu tivesse despertado o lado curioso que toda mulher possui, só que umas demonstram às vezes e outras esfregam em nossas caras. 
- Não é não. - não aguentei e ri do seu entusiasmo. 
- Por que? - Vi sua curiosidade triplicar. 
- Porque ela não dá a mínima pra mim. - Eu quis que parecesse uma indireta, mas ela nem se deu conta, para variar. Isso era o que mais me impressionava, ela notava cada detalhe nos pássaros, sabia exatamente por onde andava em cada cantinho da cidade e reparava sempre no perfume das pessoas da cafetaria, mas não notava que alguém era louco por ela. 
- Ela te conhece? 
- Ela sabe que eu existo. - eu ri de novo, dessa vez para não chorar. 
- Então você já marcou ponto. - ela sorriu e a vontade de tê-la em meus braços aumentou junto com as minhas esperanças. 
- E agora falta o quê? - Eu acho que estava melhorando, já que pelo menos, tinha feito ela esquecer do namorado canalha e ter se concentrado em me ajudar a conquistá-la. 
- Descubra do quê ela gosta. 
- Disso eu já sei. 
- Repare em algumas coisas sobre ela.
- Isso eu também já sei. - pensei na lista de qualidades e na inexistência de defeitos sobre ela.
- Então puxe assunto, arrume um jeito de falar com ela.
- Eu arrumei. - ela ficou calada por alguns minutos e depois voltou a se animar. 
- Mesmo? Qual? 
- Vi ela triste e resolvi ajudá-la. 
- Que lindo. - ela fez aquela voizinha de quem fala com bebês como se tentasse alcançar a língua deles e sorriu, dessa vez quase fechando os olhos de tanto que as bochechas os espremeram. - E deu certo? - apoio o braço no encosto do banco da praça e tombou a cabeça, e eu por impulso a imitei, arrancando a risadinha aguda dela. 
- Acho que sim, ela até esqueceu os problemas.
- Ela te deve uma então, cobre isso dela. - Seus olhos alcançaram o relógio que estava em meu pulso e ela praticamente saltou do banco, era quase hora do almoço. 
- Desculpa, estou atrasada, preciso ir. - ela se despediu beijando minha bochecha, e eu passei segundos extasiado com o cheiro do seu cabelo misturado com o do perfume que usava. Antes que ela atravessasse o bairro inteiro com aquelas perninhas curtas, agarrei seu pulso e a fiz parar, me encarando. 
- Você me deve uma. 
- Como? - e ela arqueou a sobrancelha, desentendida. 
- Alguém que eu conheci pediu para que eu cobrasse isso da garota que eu amo. - E daí para frente ela esqueceu dos pássaros e o motivo pelo qual ela acordava cedo, comprava café e contava as moedinhas com cuidado, era eu.



20 de junho de 2012

A palavra é liberdade


Sempre gostei de deixar as pessoas livres. Antes de qualquer coisa, porque não vejo vantagem nenhuma em ter pessoas de má vontade vivendo comigo.
Não é a toa que na parede do meu quarto há pássaros desenhados. Voando – não posso me esquecer do detalhe.
Há no mundo em que vivemos, desgosto maior do que ficar preso em uma gaiola? Pior que isso só pode ser prisioneiro das pessoas.
Eu gosto de altura, de asas, gosto da liberdade. Que sentido isso faria se eu aprisionasse as pessoas com que convivo? Ou que amo? Pior: aprisionar quem me ama?
Grades me geram arrepios.
Repito: não pretendo ter ninguém caminhando do meu lado de má vontade.
Isso não tem haver com não se importar, não tem haver com não sentir falta. É claro que em meio ao caminho, foram embora pessoas que eu gostaria que tivessem ficado por bem mais tempo. Mas se meu tempo, não era seu tempo, então é melhor que vá mesmo pra eu não ter que me culpar por infelicidade alheia.
Quer ir? Que vá. E se for, opte por não voltar. Uma dor só é o suficiente. Se já foi embora uma vez, as chances de querer embora de novo soam mais prováveis.
Digamos que eu tenha me acostumado com o aeroporto que minha vida se tornou. Com entra e sai constante entende?
Quer ir? Que vá. Já é difícil tomar conta da minha vida, imagine cuidar da vida de alguém aprisionado a mim.

(Raphaela Fagionato)


4 de junho de 2012

Chorar por dentro, pensar em nada, fugir para longe.


Foi só então que sai da minha angustia solitária – só quando percebi que ela simplesmente não iria passar. Levantei os olhos. Olhei a minha volta. A janela estava fechada somente nos vidros e por isso deixava apenas alguns raios mais fortes da luz do sol passar pra dentro do quarto. A porta também fechada abafava a conversa fraca que acontecia em algum outro canto da casa. A vontade de ficar ali com as pernas cruzadas em cima da cama prevalecia a qualquer sinal de outra vontade. A minha garganta estava amarrada em nó como a de quem está chorando, mas nos olhos não havia sequer uma única lagrima. Talvez eu estivesse chorando por dentro.
Os pensamentos sempre tão vagos estavam a quilômetros de distancia. A minha prioridade era não pensar em nada. Mas pensar em não pensar em nada já era alguma coisa não era? Por mais desligada que eu gostaria de parecer – pra mim mesma acreditar – eu sabia muito bem no que eu estava tentando não pensar. Quando minha mente enfim foi invadida, eu chacoalhei a cabeça como se isso fosse afastar esses pensamentos. Em segundos já estava de pé, na frente da minha janela. Então eu a abri. Vi três ou quatro pássaros voando baixo no céu. Acompanhei-os até onde meus olhos alcançavam e dei um sorriso leve. Lembrei-me do quanto adorava pássaros. E me virei pra conferir os meus colados na parede. “Queria ser como um pássaro” pensei. Li em algum lugar, que a graciosidade dos pássaros é que eles podem voar para longe quando as coisas estão difíceis. Seria mesmo interessante saltar de um barranco qualquer, sem malas, sem contar a ninguém, somente com um par de asas e fugir pra qualquer outro lugar toda vez que algo me chateasse. Seria ótimo fugir quando as coisas não estivessem bem e voltar só depois que elas se ajeitassem.
Mas seria fácil demais também né? Fugir nunca resolveu problemas. Nem melhorou as coisas. Pensei em quantas vezes fiquei aqui, parada, lutando sem forças pra melhorar as coisas. Dando o melhor de mim. Nunca fui de muito de fugir – apesar de já ter feito isso – principalmente porque prefiro um ‘não’ do que um ‘talvez’. Entende o problema? Apesar do meu acomodo algumas vezes, sempre preferi fazer as coisas sozinhas a esperar que façam por mim. (A não ser as vezes que meu orgulho não deixou, mas foram menos vezes). E fugir também não traria aprendizado. Pode ser que isso se repetisse e então eu não saberia enfrentar, logo, teria que fugir de novo. E viver fugindo não me parece muito bom. Uma ou outra vez, até acontece, ninguém é forte o tempo todo, mas fugir toda vez, é loucura, é impossível. Chega a ser chato. Eu preferi admirar a liberdade que os pássaros representam, mas essa mania de viver fugindo me parece um problema, um defeito e tanto.

(Raphaela Fagionato)


3 de junho de 2012

Antes dos 16

Sou do tipo de pessoa que sempre espera ansiosa o dia do próprio aniversário. E esse ano não foi tão diferente.
Porém, uma semana antes de chegar o grande dia (pra mim), eu parei pra imaginar se tinha alguma coisa que eu queria fazer antes de completar os 16 anos. Acertar as contas com alguém, ler um novo livro, comprar coisas novas...
Nada. Eu não tive vontade de fazer nada. Simplesmente porque acredito que já fiz tudo que deveria ter feito. Apesar dos erros e falhas, me sinto bem comigo mesma. Antes de deixar a narrativa clichê dizendo algo do tipo ‘eu não me arrependo de nada’, eu tenho uma coisa de que me queixar: eu me arrependo das coisas que eu não fiz, e principalmente, das horas em que eu me calei sabendo que era a hora certa pra dizer certas coisas.
Tá certo, eu me arrependo de algumas outras coisas, mas ai é que tá: eu não as concertaria nem se pudesse; sinto falta de outras – mas prefiro que não voltem. Fizeram-me crescer, isso sim. No caminho até aqui, levei alguns tropeços, chorei mais do que gostaria, senti mais do que achei que caberia em mim, e também contemplei felicidades fora de mim. Vi o fim do mundo algumas vezes, e no outro dia estava tudo bem. Escapei pela janela onde não haviam portas de saída.
Fiz amigos (muitos amigos) e alguns desse pretendo levar por mais 16 anos; e mais 16, e quem sabe mais 16. Ao mesmo tempo, perdi alguns e senti a imensa falta de outros.
Conheci musicas que descreveram tudo o que eu precisava, e que vão me remeter aos momentos que elas marcaram pra sempre. Dei gargalhadas de felicidade, e sorri pra disfarçar uma dor. Preocupei-me mais do que gostaria, mas em compensação, ajudei mais também.
E percebi, no final de tudo que o aniversário é só uma data a mais no calendário, e que nada vai mudar por um ano a mais ou a menos. Ganhar, perder, dar, receber, fazer planos, correr atrás daquilo que mais se quer, é bom, é ótimo. E mudar de opinião, mudar de conceitos, mudar de prioridades é inevitável e independe de mais uma velinha no bolo.
E não há nada que eu queria fazer propositalmente antes dos 16.
As coisas que venham no tempo certo se vierem, ou tiverem que vir, ou que não venham.

(Raphaela Fagionato)


1 de junho de 2012

Pronto pra mudar?


Tem gente que diz que as pessoas mudam. O argumento ‘mudar’ é usado nas pessoas pra dois sentidos: o primeiro, pra reclamar, pra jogar na cara que alguém mudou de comportamento. Dizem que dói ver pessoas mudando com você; o que de fato é verdade, sem levar em consideração os motivos que a fizeram mudar. O segundo, é bem diferente: está relacionado com orgulho, com apatia. “Eu mudei” “Eu abandonei” “Eu não me importo mais”.
Por outro lado, há quem diga que as pessoas, por mais que se passe muito tempo, no fundo, nunca mudam. Nunca deixam de ser quem foram, nunca deixam de cometer os mesmos erros, nunca deixam de praticar os mesmos atos. 
Se a gente parar pra analisar, há coisas na vida que nunca mudam mesmo, como as memórias, mas na minha humilde opinião, pessoas são a grande exceção a regra.
Pessoas mudam sim. Quero dizer, pessoas que vivem de verdade, que se entregam nas coisas, que não apenas existem. Opiniões são sempre mudadas, o que nos agrada aqui, não agrada muito mais ali. Aprendemos todos os dias. Como seria possível não mudar? Se convivemos com opiniões diferentes vindas de pessoas completamente diferentes?! Nossas escolhas nos mudam. (Ou obrigam a mudar).
O tempo passa, o mundo gira, e gira mesmo; a cada volta, tudo muda. Prioridades são invertidas, novos conhecimentos e descobertas chegam; coisas importantes se vão, nos obrigando a sair do acomodo – graças à Deus – tudo, está em movimento à nossa volta.
Se não bastasse tudo isso, ainda há nossos erros. Ah, como eles nos mudam. Caímos ali, podemos cair de novo aqui, mas chega uma hora em que insistir no erro não progredi e nós tomamos um rumo diferente. E ai vem o mais importante: nós aprendemos com os esses erros. Os tropeços deixam as pernas mais resistentes, as  cicatrizes fazem novas dores não machucarem tanto e a gente simplesmente – com nada de simples – muda. E muda de novo. E é essa a beleza da vida. E é essa a minha teoria. As pessoas mudam sim. Pra melhor, pra pior, mas mudam. Ninguém é o mesmo de um tempo atrás. Se for tá com defeito.

(Raphaela Fagionato)


20 de maio de 2012

Angústia


Levantou os olhos e observou a sua volta. Lembrou-se que deveria sorrir. Em qualquer hipótese, por qualquer motivo, ou até sem motivo algum, sorrir. Por sorte, já estava habituada a sorrir. Porque aprendera, durante a convivência com as pessoas, que sorrisos evitavam perguntas; e ela não se encontrava mesmo em plena forma pra elaborar argumentos suficientes para convencer as pessoas.
Era de fato engraçado. Ver pessoas que nunca se importaram em dizer um misero ‘oi’, sair dos confins da terra para fazer aquelas perguntas chatas quando a sua aparência não era de uma pessoa no seu melhor dia. E ela odiava quando fingiam se importar.
Até naquele momento, onde pra qualquer outro ser-humano cheio de sentimentos – e que se deixa ser movido por eles – era impossível liberar um sorriso, ela o fez. Ela queria ser forte. Fingir sorrisos não tinha nada a ver com qualidade. Tinha a ver com resistência.
Os cantos dos lábios foram subindo cada vez mais adiante das bochechas. Os olhos sempre tão arredondados foram sendo amassados até sorrirem também.
Sentiu no exato momento, nascer na boca do estomago, um burburinho que pegava a cada segundo uma forma maior, a cada segundo mais rápido subindo pelo centro do corpo, até finalmente sair disparado ao encontro da garganta. Os músculos desta se contraíram, e a garota engoliu em seco.
O burburinho subiu adiante, aos olhos, e a garota completamente tomada pelo sentimento de dor, não se deteve caso o burburinho quisesse rolar bochechas a baixo. Talvez assim o nó na garganta passasse. Foi aí que a menina se surpreendeu. Nenhuma reação sequer. O burburinho foi diminuindo, diminuindo, diminuindo. E não produziu sequer uma gota. Aqueles olhos por vezes inundados, cheios, esperando por um simples piscar de olhos pra esvair-se logo, estavam tristemente, vazios. “Vazio”, a menina pensou. Ela enfim conseguira o que sempre buscara. Não conseguia chorar. A dor que lhe tomara o peito era tão grande que nem lágrimas rolavam mais. 

(Raphaela Fagionato)


Insistir já é demais


Nunca fui o tipo de pessoa que insiste nas coisas. E essa regra de duplica em relação as pessoas. Isso não está diretamente ligado com desistir fácil, ou desistir antes mesmo de tentar.
Mas insistir já é demais.
Não deu, não adianta insistir. Insistir dói. Deixam as coisas a mercê de outras. Deixam incertezas e inseguranças. Insistir deixa as coisas mais dependentes. E eu odeio dependência.
Seguir em frente ainda é a melhor opção que inventaram. Não há medida mais drástica do que insistir sem fé alguma. E olha só que sorte: É sempre hora de seguir em frente, é sempre o momento de começar de novo. E de novo e de novo se for preciso. 
Mas insistir já é demais.
Não que eu nunca tenha acreditado em algo que eu sabia, desde o inicio, que não ia dar nada. Não que eu nunca tenha pedido desculpas mesmo estando certa, apenas pra não deixar pessoas importantes saírem da minha vida. Mas ‘eu sei reconhecer uma causa perdida quando vejo uma’. E insistir já é demais.
Eu sigo em frente, mesmo não querendo. O sentido é pra frente, é adiante. Coisas antigas e  repetidas, não me satisfazem mais. Não que eu não sinta saudade. Não que eu não tenha vontade de voltar atrás às vezes. Mas o que voltar no tempo vai me acrescentar? Quem olha demais pra trás, tropeça.
E insistir já é demais.
Caio Fernando Abreu diria: “Lâmpada queimada não se concerta, se troca por outra”.
Se não deu certo, não aconteceu, se não te perdoaram, se você fez tudo o que podia, tudo que estava ao seu alcance, não insista. A gente perde tanto tempo insistindo em algo que sabe que não vai dar em nada. A gente fica sofrendo pra ter o que já foi nosso, de volta.
Mas pra que se preocupar tanto? Quando são verdadeiras, elas voltam. Não precisa nem de esforço. Quando não são, apertam e não solucionam. Ai é hora de seguir em frente. Então segue, vai.
Quer saber o sentido da vida? Pra frente. Então segue. Só não se perca no caminho. 

(Raphaela Fagionato)


15 de maio de 2012

Nesse vai e volta


Encostei a cabeça no vidro e pus-me a observar a paisagem que mudava gradativamente. Logo me dei conta de que as imagens que passavam bem a minha frente, em segundos estavam fora do alcance dos meus olhos. Como tenho a mente barulhenta (se acham que eu falo muito é porque não conhecem a falação que cabe na minha mente) comecei a pensar nas pessoas que, assim como a paisagem vista de um ônibus em movimento, passam pela minha vida. Pessoas que entram, não permanecem por tanto tempo, mas marcam profundamente e, antes que eu perceba, se vão, com a agilidade que chegaram.
Puxei as mangas da minha blusa a fim de cobrir as palmas da mão quando o ônibus parou num ponto qualquer e a humidade do dia frio entrou pelas janelas abertas. Pensei na sequencia de fatos que vinham acontecendo na minha – congestionada – vida. Pensei em como mal me acostumei com algumas coisas e tive, mesmo que a força, despedir-me delas. Lembrei-me das brigas e reconciliações que aconteceram em um mero – e dolorido – piscar de olhos. E das reviravoltas que o meu mundo deu. Das desculpas, dos amores, dos conflitos, das amizades. Comecei a me dar conta de quanto já chorei por coisas que não voltam mais. E o quanto valor coloquei nas pessoas que se foram. Foi aí que fechei os olhos e parei de perguntar ‘porque’.
Lembrei-me das pessoas que ficaram, que fizeram tudo pra me fazer sorrir, que estiveram do meu lado sempre, até quando eu não merecia. Que me deram novas chances pra consertar meus erros. Pessoas que por tanto tempo eu lutei pra tá junto, e que por bobagem, por pelo menos um segundo, pensei em abrir mão. Assim, por culpa desse egoísmo, dessa possessão que eu teimo em criar em cima das pessoas. A gente acostuma a reclamar tanto, a desejar coisas que estão foras de alcance, que se esquece de ver as coisas que já conquistamos. Esquecemo-nos de agradecer. E quase sempre, há mais motivos para agradecer do que pra reclamar. A gente quer tanto e com tanta exigência que acaba sem nada e ainda acha que as pessoas é que são ruins.
A gente gosta de se machucar. Gosta de sofrer. Só nos damos conta do tanto que temos quando ele se vai. E infelizmente, saudade não é – nunca foi – motivo suficiente pra trazer de volta.
Mas uma vez me surpreendi. Me dei conta do quanto eu sou feliz. Do quando sou amada, e do quanto amo também. De como sofreria se perdesse. Do quanto incomparável é, se sentir protegida diante de braços que não te soltam. E foi aí que eu percebi a diferença, a sutil diferença entre gostar e amar. 

(Raphaela Fagionato)


11 de maio de 2012

Para com isso garoto.


Para com isso garoto. As decepções que ela te proporcionou não foram suficientes pra te fazer desistir, não é?
Mas, para pra pensar melhor garoto, será que vale tanto à pena? Ela te abandonou. Não chegou nem a te dar uma nova chance. Ela sequer chegou a saber, completamente quem você é.
Ela te ouviu, mas será que absorveu tudo o que você quis dizer?
Ela te iludiu, não foi? Te fez esperar tanto pra nada, não é? Como se sente garoto? Se importar tá te levando pra onde?
Não sente nem um pouquinho de vontade de virar as costas pra ela, de jogar tudo isso pra cima? Deixa esse pouquinho te invadir, deixa transbordar, seja mais forte do que é hoje.
Não é garantia que ela volte toda arrependida pedindo pra voltar, mas é garantia que essa dor passe mais rápido, que você se recupere mais rápido; logo você nem vai se lembrar.
Garoto, para logo com isso. Os dias que passou mal e as noites que mal dormiu não foram suficientes pra te fazer ver isso?
Desvia um pouco da atenção no que ela fala e presta mais atenção no que ela faz. Ás vezes ela sente medo de te magoar e acaba dizendo coisas que te deixam feliz. Ela acaba se esquecendo de que fazer isso vai te magoar ainda mais, só que adiando.
Mas para com isso, vai garoto.
Que se dane se ela ainda sofre, se ela chora, se tem ou não saudade. Ela não mexeu uma palha pra ficar com você. Larga disso garoto. Ela não te ama. Talvez ainda goste, mas não ama. Se amasse largaria tudo, abandonaria tudo, só pra ficar com você. Ela não ficaria colocando impossibilidades, nem obstáculos. Dando desculpas? Ah, para com isso vai garoto. E se tudo isso ainda não é suficiente pra te fazer mudar, garoto, eu te digo, se ela fosse eu, estaria te pedindo pra desistir, de novo.

(Raphaela Fagionato)


3 de maio de 2012

O Tempo e a Dor


Sempre acreditei que o tempo era o remédio perfeito pra curar dores. Até ler essa definição: “O tempo não cura nada, ele só tira o incurável do centro das atenções.” Como não pensei nisso antes? Cai perfeitamente. Justo eu, que qualquer demonstração de afeto me afeta...  Justo eu que levo meses, anos pra esquecer e segundos pra lembrar. A verdade é que atenção me cativa. E sorrisos me atraem.
Como eu não tinha pensado nisso antes? Já fui ‘curada’ de muita coisa, e carrego cicatrizes bem ao alcance dos olhos. Todo cicatriz tem história né? Não me arrependo de nada. É isso. É perfeito. Justo que eu que vivo numa luta constante comigo mesma. Às vezes me pego as berros maltratando o próprio coração: “Para de criar essa expectativa maldita”. Ou ainda “Espera menos das pessoas”. Eu, que por tantas vezes dei conselhos, nem sei o que fazer com os meus problemas; as respostas que eu entrego não respondem as minhas perguntas.
É perfeito. Perdoar, nunca me foi difícil. Não que não doa, não que não me de vontade de jogar o erro na cara de vez em quando (me perdoa se já fiz isso), mas não sou o tipo de pessoa que se afunda em magoas. Quero o coração leve, sempre longe desse gosto amargo que tem o ódio.
Mas é perfeito. O tempo não curou nada. O tempo passou, como sempre passa, (arrastou-se pra mim, mas ainda assim passou) e eu me vi tão bem, me livrando do tudo que me chateava. Me vi – por incrível que pareça – esquecendo. Não tinha preocupação. O caminho foi só seguir em frente. Mas não estava apagado. Só saiu do centro das atenções. Assim que voltou – preciso realçar, como um furacão, devastando tudo – me deu aquela impressão que eu era fácil de cativar demais. Influenciável demais. Eu tentei ser tão forte, tão vingativa. Mas aí não era eu. Não podia. Eu jamais seria assim. (Eu não sou).
Entretanto eu sempre fui capaz de começar de novo. E não vai ser diferente dessa vez. Claro que não. Mais uma vez, recolhendo os caquinhos pra recomeçar aquele velho processo de esquecer. Ah, e deixa o tempo passar. Quem sabe ele não passa por aqui e me dá mais motivos pra sorrir. E só mais uma coisa, se é que eu posso pedir algo: Quando eu estiver prestes a esquecer completamente, não volta mais não, tá?

(Raphaela Fagionato)


1 de maio de 2012

Intenso


Sempre gostei de intensidade. Essa palavra me inspira. Pra mim, as coisas sempre soaram dessa forma: se é doce, pode exagerar no açúcar. Se é salgado, não economiza no sal. Meio termo é um saco e machuca, ficar com dúvidas sempre me enojou e metades nunca me satisfizeram.
“Talvez”. Tá aí uma palavra que me causa arrepio. Eu gosto de certezas, de sim e não. Se gosta, gosta, se não gosta, não adianta fazer pra agradar os outros. Acho que por isso digo ‘não’ pras coisas que ainda não decidi se realmente quero. Porque não gosto de sobras, nem de acumulo. E não gosto que dependam de mim. Aí falo ‘não’ de uma vez pra acabar com a chance que se venha ter. É claro que às vezes me arrependo. E me pego pensando como seria se tivesse dito ‘sim’. Se tivesse acreditado mais, arriscado mais. Mas deixa pra lá, eu nunca fui o tipo de pessoa que se arrepende das coisas que faz. Não por orgulho, mas pela plena ciência de que pelo menos por um segundo eu quis aquela coisa, caso contrario não a teria escolhido. Odeio me sentir perdida. Me sentir solta, em duvida entre duas possibilidades.
Gosto de intensidade. Gosto de envolver-me, de deixar levar, gosto de me apaixonar. Não gosto de criar expectativas. Muito menos expectativas em cima de outras pessoas. Menos ainda quando criam expectativas em cima de mim. Não gosto de ser responsável por decepção, por abandono.
Verdade dói na hora, mentira dói lá na frente, mas dúvida dói em todos os tempos. Então se quer, seja direto, seja intenso, ou então aceite perder. Consegue me entender com a intensidade da palavra?

(Raphaela Fagionato)